Entrevista: Efeitos da Pandemia na linguagem

O Crefono 2 conversou com cinco conselheiras sobre os impactos da Pandemia no que diz respeito especificamente à Fonoaudiologia. Nessa página, você confere a entrevista com a a fonoaudióloga Sandra Cazelato (CRFa 2-7678) sobre os efeitos no campo da Linguagem

Confira a entrevista com a fonoaudióloga Sandra Cazelato (CRFa 2-7678), Doutora em Linguística pela Unicamp e Pós-Doutora em Letras pela UFF, sobre os efeitos da Pandemia na Linguagem e suas alterações cognitivas e neuropsiquiátricas.

É importante ressaltar que muitos estudos e pesquisas ainda estão sendo realizados, muitos ainda não são conclusivos ou não possuem acordos no campo científico. O objetivo das entrevistas realizadas é compartilhar o que os profissionais têm presenciado na clínica e acompanhado dos estudos já publicados.

Para conferir todas as entrevistas sobre os impactos da Pandemia nas áreas da Fonoaudiologia, acesse aqui.


Crefono 2 – Quais são as principais alterações ou queixas relacionadas à linguagem em pacientes pós Covid19?

As principais alterações ou queixas observadas e relatadas em pacientes pós-Covid-19 são anomia (dificuldade no acesso fonológico, lexical ou semântico), alteração no planejamento e na organização da linguagem e logorreia (fala compulsiva e/ou com discurso incoerente). Relata-se, também, alterações cognitivas, principalmente, a queixa de memória, e alterações neuropsiquiátricas, como alterações não específicas de linguagem. Algumas alterações pós-Covid-19 podem estar associadas ao quadro de delirium, e se observa evolução para um comprometimento cognitivo, que, muitas vezes, interfere na linguagem, com desorganização do pensamento e “discurso confuso”. Alguns pacientes adquirem uma encefalopatia metabólica. As queixas e alterações cognitivas em pacientes pós-delirium são referidas pelos familiares e pela equipe de atendimento hospitalar, que não têm experiência na área, como o paciente está “esquisito”. Diante deste quadro, verifica-se lentificação de processamento da linguagem, alteração da pragmática e memória de curto prazo prejudicada. A queixa de memória é relatada também por pacientes com sintomas leve de Covid. A atenção, a concentração e a função executiva foram particularmente afetadas pelo Covid-19, em comparação com pacientes assintomáticos.

Crefono 2 – O que revelaram os primeiros estudos sobre os efeitos da Covid-19?

Os resultados das pesquisas demonstram que deficiências cognitivas subclínicas podem ser uma complicação comum após a recuperação de Covid-19 em adultos jovens. Sintomas neurológicos durante a infecção foram fatores de risco para comprometimento neurocognitivo e as queixas cognitivas também foram associadas à ansiedade e depressão. As complicações neuropsiquiátricas associadas à Covid-19 são observadas em indivíduos gravemente afetados durante a infecção aguda, mas não está claro se a Covid-19 leve resulta em déficits neurocognitivos leves em pacientes jovens. As pesquisas também verificaram que mais da metade dos pacientes que se recuperam do Covid-19 apresentam fadiga. Os pacientes manifestaram fadiga, apatia, déficits executivos, controle cognitivo prejudicado e redução da cognição global. As alterações observadas nos resultados das pesquisas sugerem uma possível disfunção GABA-érgica. Esse comprometimento pode estar relacionado às alterações neuropsicológicas. 

Crefono 2 – Já se sabe como o vírus desencadeia problemas cognitivos?

O efeito do SARS‐CoV‐2 na cognição pode estar relacionado à vulnerabilidade de várias células do Sistema Nervosco Central (SNC) ao vírus e à sua infiltração direta no SNC. No SNC, o receptor é expresso em neurônios, astrócitos, oligodendrócitos e células endoteliais. Fora do SNC, o receptor é expresso nos alvéolos, intestino, rim e epiderme, bem como nas células endoteliais vasculares. As manifestações clínicas resultantes desta patologia do SNC são múltiplas. Elas incluem distúrbios inflamatórios (meningoencefalite, encefalomielite disseminada aguda), encefalopatias que se apresentam com distúrbios comportamentais, convulsões e doença cerebrovascular (trombótica e hemorrágica). A prevalência de manifestações do SNC em infecção grave é alta, tais como agitação, confusão, Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico.Existem apenas dados limitados sobre o impacto da infecção por Covid-19 na função cognitiva além da doença aguda. No entanto, os efeitos diretos e indiretos da infecção indicam uma probabilidade de comprometimento cognitivo de longo prazo. Existe o risco potencial de que a infecção por Covid‐19 possa causar declínio cognitivo de longo prazo ao acelerar o início da demência neurodegenerativa. A gravidade da infecção é maior em idades mais avançadas.

Crefono 2 – Em relação aos efeitos relacionados de forma geral ao contexto da Pandemia, para além dos efeitos diretodo vírus, o que os estudos têm demonstrado?

Com o andamento da pandemia, as pesquisas se voltaram para as consequências de médio e longo prazo da infecção, como os estudos sobre o comprometimento cognitivo, não apenas como efeito direto da infiltração neurotrópica viral no cérebro, mas também devido a fatores indiretos associados à pandemia, como aumento do isolamento social e problemas de saúde mental. Identificou-se comprometimento da memória, afetando também os adultos mais jovens.  

Crefono 2 – Quais são os próximos passos para avançarmos nos estudos sobre os efeitos da Pandemia na Linguagem?

É necessidade urgente compreender melhor os mecanismos que resultam em disfunção cognitiva, na busca da introdução de intervenções e estratégias de Saúde Pública para combater os efeitos deletérios da pandemia a longo prazo.Um extenso trabalho futuro será necessário para mapear os mecanismos e prevalência de “COVID cognitivo” de longo prazo com estudos laboratoriais in vivo e in vitro, enquanto estudos epidemiológicos longitudinais em grande escala serão necessários para identificar os fatores de risco demográficos, genéticos e psicossociais de Covid-19. Além do estudo sobre o declínio cognitivo relacionado para diferenciar entre os efeitos diretos e indiretos da infecção, ou seja, diferenciar a disfunção cognitiva diretamente devido à infecção daquela associada à depressão e outros problemas de saúde mental.É relevante a atenção nas implicações da infecção por Covid-19 para o comprometimento cognitivo de longo prazo e o risco de demência, para auxiliar na detecção e intervenção prospectiva com estratégias farmacológicas e de Saúde Pública.  


REFERÊNCIAS INDICADAS PELA ENTREVISTADA

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7717144/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33111132/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33359928/
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7801840/

 

 

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