Entrevista: Efeitos da Pandemia na voz e Disfagia

O Crefono 2 conversou com cinco conselheiras sobre os impactos da Pandemia no que diz respeito especificamente à Fonoaudiologia. Nessa página, você confere a entrevista com a Fga. Telma Kioko Takeshita Monaretti (CRFa 2 – 16167) sobre voz e Disfagia.

Confira a entrevista com a fonoaudióloga Telma Kioko Takeshita Monaretti (CRFa 2 – 16167) , Mestre e Doutora em Ciências pela FMRP/USP, fonoaudióloga assistente do HCFMRP-USP, sobre as condições clínicas fonoaudiológicas pós-covid na área de voz e disfagia decorrentes da própria doença e/ou do tratamento.

É importante ressaltar que muitos estudos e pesquisas ainda estão sendo realizados, muitos ainda não são conclusivos ou não possuem acordos no campo científico. O objetivo das entrevistas realizadas é compartilhar o que os profissionais têm presenciado na clínica e acompanhado dos estudos já publicados.

Para conferir todas as entrevistas sobre os impactos da Pandemia nas áreas da Fonoaudiologia, acesse aqui.

 

Crefono 2- Quais as possíveis consequências na deglutição de um paciente com Covid19?

É evidente que doentes graves portadores de COVID-19 com necessidade de intubação orotraqueal não têm indicação de acompanhamento fonoaudiológico durante o período de ventilação mecânica, porém é factível de que a maioria deles necessitará de avaliação e acompanhamento especializado para o tratamento de seus déficits de deglutição após o período crítico. A presbifagia, intubação oral prolongada e possíveis comprometimentos pulmonares são fatores de risco para o desenvolvimento de disfagia. De acordo com a literatura, a passagem do tubo por via oral pela orofaringe e laringe e o uso de bloqueadores neuromusculares ou agentes sedativos durante o período de internação podem gerar várias alterações, tais como: modificações na anatomia glótica, atrofia ou inatividade dos músculos esqueléticos responsáveis pela deglutição e fonação, alterações nos quimiorreceptores e mecanorreceptores presentes nas mucosas da faringe e laringe, além de déficits no reflexo de tosse e sensibilidade intraoral. Eventos cerebrovasculares associados ao vírus podem também levar à quadros disfágicos. Além disso, os sintomas digestivos são frequentemente reconhecidos em pacientes com COVID-19, incluindo-se perda de apetite, diarreia e vômitos.

Vale destacar que, após o período de recuperação, os indivíduos portadores de COVID-19 apresentarão algum grau de comprometimento pulmonar. Sabe-se que doenças respiratórias, como fibrose pulmonar e apneia obstrutiva do sono, estão intimamente associadas a déficits patológicos da coordenação da deglutição e respiração, aspecto de risco para disfagia e broncoaspiração, além da questão vocal dependente dos parâmetros aerodinâmicos para a qualidade da sua produção.

Em decorrência da internação prolongada, das condições do paciente crítico, a sarcopenia provoca a perda de massa muscular e enfraquecimento progressivo que afeta todos os músculos esqueléticos em decorrência da redução de unidades motoras e perda de fibras de contrações lentas e rápidas, podendo ser causada por fatores hormonais, imunológicos, oxidativos, metabólicos, nutricionais e ambientais, os quais reduzem as condições de vida para cumprimento das atividades diárias. Ao afetar os músculos responsáveis pela produção vocal, consequentemente a sarcopenia pode afetar o mecanismo da deglutição, através da redução da força de contração, da resistência, da fadiga e da potência muscular.

Diante do exposto, é indiscutível a necessidade de mais pesquisas na área e também a importância do encaminhamento precoce e seguimento fonoaudiológico durante e após alta hospitalar do paciente para avaliação da eficiência e segurança da deglutição, uma vez que se trata de uma nova doença o que exige um acompanhamento a curto e longo prazo a fim de determinar as principais características da função da deglutição nessa população e o estabelecimento do plano de cuidados mais apropriado. 

Crefono 2 – Falando em questão vocal, quais outras sequelas os pacientes de covid19 podem apresentar na voz?

O resultado vocal no paciente pós-covid pode estar relacionado às possíveis alterações anatômicas geradas pela intubação prolongada, como a imobilidade de prega vocal, além da perda de força, massa muscular e desempenho da função vocal em decorrência das condições clínicas do paciente crítico, associadas ou não aos quadros de presbifonia. Além disso, devem ser consideradas também as possíveis alterações pulmonares decorrentes da própria covid e/ou de pneumopatias prévias apresentadas. Todos esses fatores podem influenciar na qualidade da função vocal, considerando-se as propriedades mioelásticas e aerodinâmicas da voz, sendo encontrados os seguintes parâmetros na literatura para essa população: disfonia, intensidade vocal fraca, dificuldade em manter a fonação, incoordenação pneumofonoarticulatória e fadiga vocal, dentre outros. As alterações vocais podem gerar impacto na qualidade de vida do paciente nos âmbitos pessoal, social e/ou profissional, necessitando de acompanhamento especializado.

 REFERÊNCIAS INIDCADAS PELA ENTREVISTADA:

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- Aoyagi Y, Inamoto Y, Shibata S, Kagaya H, Otaka Y, Saitoh E. Manifestação clínica, avaliação e estratégia de reabilitação da disfagia associada ao COVID-19. Am J Phys Med Rehabil . 2021; 100 (5): 424-431. doi: 10.1097 / PHM.0000000000001735

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- Thomas LB, Harrison AL, Stemple JC. Aging thyroarytenoid and limb skeletal muscle: lessons in contrast.  J Voice. 2008 Jul;22(4):430-50.

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- Easterling C.  Does an Exercise Aimed at Improving Swallow Function Have an Effect on Vocal Function in the Healthy Elderly? Dysphagia. 2008 Sep;23(3):317-26.

 

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