A Gerontologia e o Fonoaudiólogo




Por Milene Valente Lopes *




O envelhecimento populacional é uma realidade e um grande desafio a ser encarado.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial com mais de 60 anos passará de aproximadamente 800 milhões para mais de dois bilhões em 2050. A cada segundo, duas pessoas em todo o mundo comemoram seu 60º aniversário.

Segundo o médico especialista em envelhecimento, Alexandre Kalache, estamos vivendo a “Revolução da Longevidade”. No Brasil, especificamente, esta revolução está ocorrendo de forma muito rápida havendo a necessidade da família, do Estado e da sociedade aprenderem a lidar com esse novo cenário.



Gerontologia, uma nova especialidade da Fonoaudiologia
Atento a essa demanda, o Sistema de Conselhos de Fonoaudiologia, considerando a já ampla atuação do fonoaudiólogo com a população idosa, promulgou a RESOLUÇÃO CFFa nº 463, de 21 de janeiro de 2015, que “dispõe sobre as atribuições e competências relativas ao profissional Fonoaudiólogo Especialista em Gerontologia”.

Essa resolução estabelece as atribuições e as competências do profissional Fonoaudiólogo Especialista em Gerontologia, tornando-o apto não apenas a realizar diagnósticos e tratar as alterações fonoaudiológicas que possam afetar a qualidade de vida do idoso, mas também a atuar com a família, com a equipe multidisciplinar, em políticas públicas, na educação da sociedade, em pesquisas, na gestão de serviços, etc.


A Fonoaudiologia sempre desenvolveu  trabalhos com a pessoa idosa, sendo a atuação do fonoaudiólogo nessa fase da vida bastante ampla, pois engloba diversas áreas da profissão. Geralmente, a atuação ocorre na Assistência, nas patologias que os idosos podem vir a apresentar e que afetam as áreas da linguagem, audição, voz, motricidade oral e disfagia. Porém, o fonoaudiólogo pode e deve atuar na preservação das habilidades comunicativas e na promoção de uma melhor qualidade de vida.


Por se tratar de uma ciência que estuda a comunicação humana, a Fonoaudiologia é responsável pelas diferentes formas de circulação de informações, sentimentos, desejos, percepções, as quais ajudam na manutenção das necessidades básicas da vida, na aquisição de novos conhecimentos e na interação do indivíduo na sociedade. A comunicação é uma das mais efetivas maneiras do ser humano interagir com o meio em que vive; é uma habilidade adquirida e desenvolvida na interação com o outro e é fundamental que seja mantida para garantir a autonomia e independência em todas as etapas da vida.


Todos somos sujeitos heterogêneos, com características individuais, e isso independe da etapa da vida que nos encontramos. Na velhice é assim também.  Algumas pessoas apresentam mais dificuldade na audição, outras na fonação, no uso social da linguagem, na fluência, na memória, no vocabulário.  São marcas diversas que não surgem obrigatoriamente e não acontecem da mesma maneira para todos.


Existem alguns comentários a respeito da comunicação do idoso que são bastante conhecidos no senso comum: a fala é confusa, ele é muito esquecido, fala demais e sobre o passado, é surdo, repetitivo, cheio de histórias, entre outros. Existem também alguns personagens estereotipados, como por exemplo, a velhinha da Praça da Alegria.  Isto nos mostra que existe um preconceito ou uma falta de conhecimento da sociedade com relação à essa fase da vida. Sobre isso, o fonoaudiólogo pode, e deve atuar, informando a população e buscando transformar essa ideia.


Com uma comunicação efetiva, os idosos podem levar uma vida mais satisfatória, enfrentando os desafios, executando projetos de vida, especialmente se contarem com uma rede social de apoio. Portanto, desenvolver programas de treinamento das habilidades comunicativas para aumentar e manter um bom desempenho comunicativo pode levar uma melhor qualidade de vida ao idoso, além de mantê-lo como protagonista da sua vida.


A pessoa idosa, em função da perda de capacidades funcionais, poderá ser assistida por uma equipe que não deve ter um olhar segmentado. Dentro desta equipe, o fonoaudiólogo pode ser o profissional apto para facilitar essa troca de informações, considerando sua ampla formação sobre a comunicação humana, como já foi destacado. Da mesma forma, isso deve acontecer no processo de orientação e cuidado com a família e/ou com o cuidador, pois a desestruturação familiar e o desencontro de informações podem ser bastante prejudiciais. Portanto, outro papel importante do fonoaudiólogo é facilitar a comunicação dentro de equipes multidisciplinares e com os envolvidos no convívio do idoso.


Em relação aos cuidados paliativos, o respeito e o cumprimento das vontades do idoso deve ser sempre levados em consideração, e o fonoaudiólogo também pode facilitar o diálogo nestes casos.


Enfim, o papel do fonoaudiólogo não se limita às alterações da comunicação e do ato da alimentação, mas em todo o contexto das interações sociais, familiares e de cuidado. O campo de atuação da Fonoaudiologia vem se tornando cada vez mais vasto e gratificante, e o olhar fonoaudiológico auxilia, aproxima e engrandece as relações interpessoais.


* Fonoaudióloga (CRFa 2 – 4589), Agente Fiscal da Delegacia da Baixada Santista, especialista em voz pelo CFFa e Pós- Graduanda em Gerontologia pela Instituição Israelita de Ensino Albert Einstein.

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