Reabilitação vestibular: uma saída para o mal das tonturas

Milhares de pessoas que sofrem com tonturas ainda desconhecem o tratamento eficaz aplicado por fonoaudiólogos
Paciente faz exercício com tambor optocinético

É sabido que a atuação fonoaudiológica tem tido grande expansão social na área da reabilitação, abrangendo, também, a reabilitação vestibular. A reabilitação vestibular é um procedimento terapêutico fisiológico, realizado por fonoaudiólogos, que tem como objetivo melhorar e restaurar o distúrbio de equilíbrio corporal.
Quando o sistema auditivo e vestibular apresentam algum problema, individualmente
ou em conjunto, surgem como sintomas principais a tontura e/ou vertigem, com ou sem sintomas neuro-vegetativos. Esses distúrbios são conhecidos popularmente como “labirintite”, mas o nome correto que se dá a eles é “labirintopatias”, que significam doenças do labirinto.
Os problemas do labirinto podem ocorrer, porque a pessoa tem uma alteração
na região vestibular, e o cérebro acaba recebendo informações errôneas sobre sua posição num determinado lugar no espaço, e assim ter a sensação de mal estar, como se estivesse rodando, flutuando ou caindo, mas, na verdade, está parada.
Isto é resultado de um conflito entre as informações vindas da visão, do labirinto e do sistema proprioceptivo, que resulta na tontura, acompanhada dos outros sintomas.
Princípios – Quando o indivíduo sente vertigem ou tontura decorrentes do conflito sensorial, inicia-se o mecanismo de compensação central, que procura melhorar os sintomas ocasionados pela disfunção vestibular. O conjunto de todos os mecanismos que auxiliam os indivíduos a se orientarem e se equilibrarem no espaço, parados ou andando, é chamado de adaptação. A habituação é um desses mecanismos que irá, através de exercícios repetitivos prolongados, reduzir ou anular as respostas sensoriais.
O paciente que tem tontura evita o movimento, pois este desencadeia os sintomas; assim, ele se movimenta menos, o que acaba por gerar um retardo no sistema de compensação.
A reabilitação vestibular fornecerá ao paciente exercícios repetitivos adequados ao seu problema, que irão acelerar e estimular os mecanismos de adaptação, propiciando a volta do seu equilíbrio de forma mais rápida.
É importante ressaltar que a reabilitação vestibular é uma das diferentes opções de tratamento para o paciente com disfunção vestibular, podendo ser utilizada de maneira alternativa ou associada a outros tipos de tratamento.
Os Estudos – Segundo a fonoaudióloga Heloisa Helena Caovilla, professora Associada Livre-Docente da Disciplina de Otoneurologia da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina(UNIFESP-EPM), e uma das pioneiras nessa área, os estudos sobre o assunto surgiram em 1945, quando o médico Cawthorne submeteu soldados lesados pós 2ª Guerra Mundial, que apresentavam problemas de tonturas, causadas por traumatismos cranianos, a um procedimento de reabilitação vestibular que ele próprio elaborou .
Os fonoaudiólogos, por sua vez, atuam com reabilitação vestibular desde o final da década de 70.
“Quanto maior for a integração entre o fonoaudiólogo e médico, o tratamento
do paciente terá mais possibilidades de êxito”, esclarece.
Heloisa Caovilla explica que a reabilitação vestibular deve atender às necessidades individuais do paciente com problemas de equilíbrio e deve ser dirigida especificamente para as deficiências funcionais, identificadas em uma avaliação otoneurológica abrangente.
A UNIFESP-EPM foi a pioneira nesta área e há 15 anos criou o curso de especialização na área de Vestibulometria. O próprio Curso de Fonoaudiologia
já conta com a disciplina, e os estudantes de Fonoaudiologia do 2º e 3º anos
têm aulas teóricas e práticas.
A professora Heloisa alerta que, nas escolas, muitas crianças apresentam baixo rendimento por problemas de equilíbrio e, muitas vezes, são tratadas como crianças desconcentradas. “Seria muito importante que essas crianças passassem por uma avaliação otoneurológica e, se constatado o problema, deveriam ser encaminhadas para a reabilitação vestibular".

Fga.Yara Bohlsen (à direita) aplica exercício do protocolo italiano

Segunda maior queixa - A fonoaudióloga Rita Mor, que trabalha há cerca de 8 anos com reabilitação vestibular no Hospital do Servidor Público Municipal, esclarece que a reabilitação vestibular é indicada, preferencialmente, quando o paciente teve um problema vestibular que não conseguiu compensar, ou que, mesmo utilizando-se de medicamento, mantém a queixa.
Rita explica que a tontura é a segunda queixa mais comum nos consultórios médicos, perdendo somente para a cefaléia.
A faixa de atendimento dos pacientes de Rita Mor está entre 40 a 60 anos. A maioria deles adquiriu o problema de labirinto no decorrer da vida e, após a reabilitação vestibular, todos tiveram resultados positivos.
Para o fonoaudiólogo Dr. Carlos Kazuo Taguchi, professor de Reabilitação Vestibular da Uniban - Universidade Bandeirantes, a reabilitação vestibular é indicada em qualquer faixa etária.
A maioria das vestibulopatias são adquiridas, mas quando as crianças apresentam problemas congênitos de labirinto, estas muitas vezes estão acompanhadas de perda auditiva.

Fga. Dra. Heloisa Caovilla

A partir dos quatro anos e meio de idade, as crianças já têm uma boa compreensão do que é tontura e começam a apontar esse mal. Então a partir dessa idade, a reabilitação vestibular pode ser aplicada. As crianças que não têm tanta experimentação do corpo, que não brincam tanto, acabam por não ter noção da relação delas com o espaço. Muitas crianças apresentam casos de Cinetose, que é um distúrbio de equilíbrio quando se está dentro de veículos em movimento.
As causas - Segundo Carlos Kazuo, vários fatores são responsáveis pelos problemas de labirinto; são eles: doenças como diabetes, hipertensão, reumatismo, infecções por vírus e bactérias, alterações do metabolismo e hormonais, uso excessivo de drogas ototóxicas, como antibióticos e antiinflamatórios, arterosclerose, traumas, hábitos alimentares inadequados, vida sedentária, estresse, alteração vascular etc.
Carlos Kazuo explica que a terceira idade é uma faixa que apresenta muitos problemas do labirinto, seja por causa de doenças preexistentes ou por uso excessivo de drogas ototóxicas.
"Os Estados Unidos da América estão preocupados com os altos índices de traumatismo dos idosos por quedas ocasionadas pela tontura, decorrente muitas vezes do uso excessivo de drogas ototóxicas", alerta.

Fga. Rita Mor


O fonoaudiólogo diz que a faixa média de atendimento de seus pacientes está entre 60 a 82 anos, e que dos casos que passaram por reabilitação vestibular, 60% atingiram a normalidade e 40% melhoraram os sintomas.
A fonoaudióloga Elisabete Bovino Pedalini, que coordena o setor de Fonoaudiologia na Clínica de Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, e é mestranda do Curso de Pós-Graduação da Fisiopatologia Experimental da FMUSP, diz que a reabilitação vestibular do HC passa por duas etapas.
O paciente que está indicado pelo médico para se tratar, passa pelo fonoaudiólogo para seguir algumas orientações antes mesmo de fazer os exercícios. Há uma etapa de Orientação e Aconselhamento aos pacientes em grupo, agrupando de 4 a 5 pacientes comacompanhantes.
"É uma aula na qual explicamos o que é labirinto, como funciona o labirinto, quais os mecanismos que envolvem o equilíbrio do corpo e porque as pessoas são normalmente mal orientadas sobre esse aspecto".
Nesse momento, o fonoaudiólogo explica tudo sobre o tratamento, que deve ser disciplinado, o tempo de duração, que vai de dois a três meses, e quais são os novos hábitos saudáveis que devem adotar, esclarece Elisabete Pedalini.
Após a orientação é que o fonoaudiólogo ensina os exercícios que devem ser realizados pelos pacientes, individualmente.
Todos os pacientes são encaminhadospelos médicos da Otoneurologia, e já passaram pelos exames otoneurológicos ao serem atendidos pela Fonoaudiologia.

Fgo. Dr. Carlos Kazuo Kagushi

Prevenção - O Hospital das Clínicas tem um trabalho muito importante junto aos idosos no que se refere à prevenção dos problemas de equilíbrio.
"Os idosos apresentam muitos casos de síndrome do desequilíbrio, que é um problema do próprio labirinto. Esse problema ocorre por causa do tempo e pela idade, mas está associado a outros problemas como: degeneração das células sensoriais do ouvido, perda de neurônios, perda de fibras do nervo, problemas nas articulações (sistema proprioceptivo), fraqueza muscular etc.Isto acontece, porque muitas vezes o idoso teve problema de equilíbrio, tratou, mas foi mal orientado e se acomodou", explica Elisabete Pedalini.
A Fonoaudiologia do HC está participando do grupo Gamia, que existe há muitos anos dentro da Geriatria, no qual vários profissionais da saúde, ministram aulas para os idosos. No momento, Elisabete está abordando o tema Equilíbrio Corporal, no qual repassa aos idosos as noções gerais sobre equilíbrio e como devem se prevenir contra esse mal, através de orientação para se mo-vimentarem, como caminhadas e outros exercícios, a fim de ajudar os sistemas cardiovascular, pulmonar e outros.

Fga. Elisabete Pedalini


Mulheres são maioria - A fonoau-dióloga Yara Bohlsen, professora da disciplina de Audiologia do Curso de Fonoaudiologia da PUC-SP e doutoranda pela UNIFESP-EPM, relata que sua experiência no atendimento de reabilitação vestibular demonstra uma maior demanda do sexo feminino.
A professora atua com pacientes a partir dos 20 anos e, segundo ela, o processo terapêutico acarreta a melhora dos sintomas em 75% dos pacientes, só com um uso da reabilitação vestibular.
"Quando existe definição da etiologia pelo otorrinolaringologista, com associação de medicamentos e reabilitação vestibular, o tratamento do paciente tem uma melhora em torno de 95%", explica Yara Bohlsen.
Dentre os pacientes atendidos no ambulatório de Reabilitação Vestibular da UNIFESP-EPM, a professora Yara está prestando atendimento a uma senhora de 49 anos, que teve como resultado do exame vestibular, síndrome vestibular periférica irritativa à esquerda. Os sintomas de tontura surgiram há cerca de seis anos, com piora no último ano. Foi nesse período que ela procurou um médico otorrinolaringologista que, após uma avaliação completa, encaminhou-a para reabilitação vestibular.
Após quinze dias de reabilitação vestibular personalizada, a senhora já apresenta melhora em relação aos sintomas.

UP