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Happy Hour em Ribeirão Preto: FONOAUDIOLOGIA ESCOLAR

“FONOAUDIOLOGIA EDUCACIONAL: POSSIBILIDADES DE ATUAÇÃO”
            

Alguns autores referem que a História da Fonoaudiologia tem demonstrado uma identidade grande com a área da educação. Inicialmente no Brasil, a Fonoaudiologia não era diferenciada da educação especial e a reabilitação já era pensada desde a época do Império. Em São Paulo, o exercício do fonoaudiólogo teve início na década de 20, sendo que a formação deste profissional era ligada ao Magistério, demonstrando a proximidade de atuação com a educação. As primeiras práticas de atuação estavam relacionadas à profilaxia e à correção dos defeitos e vícios de linguagem dos sotaques dos estrangeiros que no Brasil residiam. Com o passar do tempo, a influência médica impôs uma mudança na atuação e formação desses professores. Estes então foram “treinados” / auxiliados por outros profissionais, tornando-se terapeutas. Na década de 60, foram criados os primeiros cursos de formação profissional, sendo que a Fonoaudiologia baseava-se no modelo basicamente clínico. Dentro desse contexto, as atividades pioneiras em Fonoaudiologia Educacional foram iniciadas em 1968, pela Escola Paulista de Medicina em São Paulo. Alguns anos depois, já na década de 80, a maioria dos fonoaudiólogos era clínico e generalista. Com a regulamentação da profissão (Lei 6965 de 1981), a escola passou a ser um espaço de atuação definido legalmente para o profissional da Fonoaudiologia (Collaço, 1991, Cavalheiro, 1997).
As primeiras ações do fonoaudiólogo na escola eram baseadas no modelo clínico, tendo estas práticas sido muito criticadas pelos diferentes profissionais da época. Na atualidade, o fonoaudiólogo educacional tem se voltado para a prevenção das questões relacionadas à comunicação (Cavalheiro, 1997). A Lei 6965/81, no capítulo II, artigo 3º, ao pontuar a atuação do fonoaudiólogo inserido no contexto educacional, destaca o caráter preventivo deste trabalho. Segundo ela, “É de competência do fonoaudiólogo desenvolver trabalho de prevenção no que se refere à área de comunicação escrita e oral, voz e audição, participar da equipe de orientação e planejamento escolar, inserindo aspectos preventivos ligados a assuntos fonoaudiológicos” (Sacaloski, Alavarsi & Guerra, 2000, p.19). Desta forma, a Fonoaudiologia Educacional diferencia-se da Fonoaudiologia clínica, já que seu foco destina-se à prevenção e à atuação planejada em equipe. Já o fonoaudiólogo clínico trabalha com indivíduos com patologias da comunicação, tanto individualmente como em grupos. A escola tornou-se, deste modo, um local privilegiado para a atuação do fonoaudiólogo, já que esta é caracterizada como uma instituição social que atende crianças de uma determinada comunidade (Collaço, 1991, Cavalheiro,1997).
Cavalheiro (1997), em seu estudo, destaca algumas atividades importantes a serem desenvolvidas pelo fonoaudiólogo no contexto educacional. Segundo a autora, o ponto inicial do trabalho consiste no Diagnóstico Institucional, objetivando conhecer as características da Instituição (local e suas necessidades), a fim de que seja elaborado um projeto condizente com a realidade. As triagens - consideradas como avaliações rápidas tendo como objetivo um pré-diagnóstico, aplicadas em indivíduos ou grupos – são também utilizadas no trabalho preventivo. Estas têm o objetivo de identificar as características de uma determinada população, a fim de que seja elaborado o projeto do trabalho a ser executado. Porém, a autora alerta que as triagens foram e têm ainda sido utilizadas baseadas na concepção clínica dentro do contexto educacional, descaracterizando-as de sua verdadeira utilidade e transformando a atuação do fonoaudiólogo educacional em coletores de patologias. Um terceiro ponto levantado é a importância do fonoaudiólogo em atuar juntamente com a equipe da instituição, participando dos planejamentos e conselhos de classe (colaborando com sugestões na elaboração dos mesmos); no trabalho com educadores (palestras, orientações, trabalhos em grupo, outros); no trabalho com os pais e familiares (palestras, orientações/atendimentos individual ou em grupo, encaminhamentos, reuniões, outros) e a preservação, prevenção e promoção de saúde das questões relacionadas à comunicação (voz, audição, linguagem oral e escrita, motricidade oral), tanto do corpo discente e suas famílias, quanto da equipe da instituição educacional.

A Instituição e a atuação da fonoaudióloga educacional
O trabalho como fonoaudióloga educacional, desde o ano de 2003, tem sido por mim realizado em uma instituição educacional privada da cidade de Ribeirão Preto – SP.  A metodologia desta escola é a Montessoriana, desenvolvida por Maria Montessori na Itália, no século XIX. O Método Montessori, dentre todos os princípios que o pautam, utiliza o método fônico (relação fonema/grafema) no processo de alfabetização.

A atuação da fonoaudióloga educacional na Educação Infantil e Ensino Fundamental
As atividades desempenhadas pela fonoaudióloga, tanto na Educação Infantil como no Ensino Fundamental, são desenvolvidas de forma semelhante. No que diz respeito ao trabalho efetuado com a equipe (professores, coordenadoras, diretora e funcionários), são realizadas:
• Orientações sobre prevenção e estimulação (linguagem oral, motricidade oral, audição, voz, além da linguagem escrita, incluindo o processo da alfabetização). A prevenção e promoção de saúde são feitas tanto direcionadas aos alunos, como também aos funcionários;
• Elaboração e adaptação de materiais de estimulação das questões relacionadas à comunicação a todos os alunos, além da reflexão de como aplicá-los dentro da realidade e do conteúdo pedagógico;
• Reuniões de discussões com a equipe sobre a evolução dos alunos, tanto sobre o desenvolvimento, como suas dificuldades;
• Participação e colaboração da fonoaudióloga educacional na elaboração do planejamento pedagógico em conjunto com a equipe;
• Colaboração na organização das reuniões de pais em conjunto com a equipe, tanto na definição dos temas, com na execução prática das mesmas. Nas reuniões, os educadores, ao divulgarem as orientações, exercem o papel de “agentes multiplicadores”;
• Reuniões com a coordenadora e com professores das etapas seguintes, ao término e/ou início do outro ano, objetivando: situar quem é o aluno que estão recebendo na nova etapa; qual a sua história em relação às aquisições/dificuldades nos anos anteriores; se o aluno está em atendimento terapêutico com outros profissionais (fonoaudiólogo, psicólogo, neurologista, psicopedagogo e outros) e quem são estes profissionais. Todos os registros são arquivados “na pasta” do aluno. 
         Já no trabalho desempenhado ao corpo discente, são desenvolvidas atividades como:
• Observação dos alunos (em sala de aula, lanche, atividades de vida diária e de recreação, “momento da fruta”, parque, casinha, etc). São feitos registros em folhas, divididas por cada sala;
• Orientações em sala de aula: trabalho preventivo e de orientação das questões relacionadas à comunicação (audição, linguagem oral e escrita, voz, motricidade oral – hábitos orais inadequados);
• Aos alunos que são novos na instituição, são buscadas informações com a família, tais como: se o aluno está em atendimento terapêutico com algum profissional; como era seu desempenho na outra escola; solicitação dos exames já realizados e dos relatórios dos profissionais que o atendem. Todas essas informações, registros e exames são anexados na “pasta” do aluno.
         Em relação ao trabalho desempenhado pela fonoaudióloga educacional com as famílias (pais, responsáveis, parentes) e funcionários/babás, são realizadas:
• Orientação sobre a atuação do fonoaudiólogo educacional inserido no contexto escolar (possibilidades de atuação com enfoque preventivo);
• Orientações em grupos: nas reuniões de pais, além de serem realizadas orientações específicas com temas relacionados à Fonoaudiologia, também é frisada a importância da colaboração da família na promoção e prevenção destas questões; 
• Reuniões individuais: são feitas orientações mais individualizadas aos pais sobre o desenvolvimento e aquisições dos alunos e, quando necessário, são realizados encaminhamentos para avaliação com profissionais externos à Instituição;
• Palestras e campanhas de orientações sobre prevenção das questões relacionadas à comunicação.
        No que diz respeito ao trabalho desempenhado com profissionais externos à instituição, a fonoaudióloga educacional, juntamente com a coordenadora, contatam constantemente estes profissionais (através de reuniões e/ou telefonemas), objetivando:
- Discutir sobre as avaliações clínicas, realizadas por esses profissionais, dos alunos encaminhados (o que foi observado e se existe ou não a necessidade de atendimento terapêutico);
- Informações sobre a evolução no atendimento clínico destes alunos;
- Solicitação de relatórios e exames desses profissionais (ex: audiometria, PAC, outros).
A coordenadora e os professores responsáveis pelo aluno geralmente participam das reuniões e recebem orientações do profissional clínico.

A Fonoaudiologia Educacional no Ensino Médio      
A atuação da fonoaudióloga educacional no Ensino Médio é realizada de uma forma um pouco distinta, quando comparada à Educação Infantil e Ensino Médio. Embora o direcionamento maior seja dado pela coordenadora e pelos professores (quando possível), através de reuniões de discussão feitas anteriormente com a fonoaudióloga, nesta etapa a fonoaudióloga realiza:
• Palestras (como por exemplo, de orientação vocal), já que muitos alunos fazem parte de grupos musicais e têm demonstrado muito interesse sobre o tema;
• Reuniões com o coordenador, a fim de informar sobre os alunos que passaram do Ensino Fundamental ao Médio. Em um segundo momento, são realizadas reuniões entre a coordenadora e os professores que receberão estes alunos, a fim de que estes sejam previamente orientados;
• Quando necessário, conforme solicitação dos professores ou coordenadora, os alunos são observados e, posteriormente, é realizada reunião com os pais/responsáveis para orientações;
• Contato e/ou reuniões com profissionais externos à instituição.

Algumas dificuldades de atuação encontradas:
Algumas dificuldades de atuação têm sido encontradas neste contexto educacional. São elas:
• Confusão ainda existente pelos familiares ao diferenciarem a atuação do fonoaudiólogo clínico e o fonoaudiólogo educacional (trabalho preventivo), sendo que alguns pais chegam a solicitar atendimento fonoaudiológico dentro da escola;
• Visão ainda “patologizante” do trabalho do fonoaudiólogo educacional para alguns profissionais da equipe e das famílias, como se o objetivo do profissional da Fonoaudiologia fosse “coletar patologias” na instituição, ao invés de seu trabalho ser de caráter preventivo;
• Resistência de alguns familiares às orientações preventivas, necessitando reflexão constante, por parte da equipe, sobre mudanças de estratégias de abordagem.
Entende-se que a mudança de visão clínica para a preventiva, por parte dos familiares, é um trabalho construído diariamente.
• Orientações/avaliações e encaminhamentos: algumas famílias demoram anos para buscarem pelas avaliações, muitas vezes não procuram ou não dão retorno à instituição.
• Maior adesão de pais às reuniões individuais – estes supõem que será feito encaminhamento ou que algo está errado - do que às reuniões de orientações/promoção e prevenção de saúde em grupos;
• Redução da adesão dos pais às reuniões de orientação de acordo com a idade e a etapa dos filhos. Na Educação Infantil, por exemplo, há uma maior frequência dos pais do berçário do que os do Infantil III. A adesão é reduzida ainda mais nas reuniãos de pais de Ensino Fundamental e Médio;
• Dificuldade no contato com alguns profissionais externos à instituição (fonoaudiólogos, psicólogos, psicopedagogos, médicos, outros). Ainda é observada uma confusão, por parte de alguns profissionais, da distinção entre a atuação do fonoaudiólogo educacional e clínico. Em muitos momentos, estes profissionais acabam por dificultar o contato e o acesso às informações necessárias sobre a avaliação e atendimento terapêutico ao qual o aluno foi ou está sendo submetido. Desta forma, é de extrema importância a compreensão do trabalho do fonoaudiólogo educacional por parte destes profissionais, a fim de colaborarem com orientações, discussões de casos, na elaboração de relatórios, etc;
• Algumas atividades práticas de estimulação, em certos momentos, não são totalmente integradas ao conteúdo pedagógico. Certos educadores ainda resistem em agregá-las às atividades regulares, referindo que devem cumprir primeiramente com o conteúdo pedagógico. Embora o planejamento seja realizado em parceria com a equipe e a fonoaudióloga educacional, ainda é observada uma visão fragmentada, por parte de alguns desses profissionais, do trabalho conjunto entre a escola e o fonoaudiólogo educacional. Assim, a integração entre a Fonoaudiologia e os profissionais da Instituição é fundamental, tanto na elaboração de projetos e do planejamento pedagógico condizentes com a realidade da instituição, quanto na aplicação prática dos mesmos;
• Carga horária reduzida, sendo o tempo muitas vezes insuficiente para serem desenvolvidas práticas preventivas na instituição de uma forma geral. Com isso, é de fundamental importância o apoio da equipe e dos familiares na integração e efetivação das atividades.

Facilidades e ganhos encontrados ao longo dos anos de atuação

Algumas mudanças, em termos de facilidades e ganhos, já têm sido observadas ao longo dos anos de atuação. São elas:
• Uma maior abertura e receptividade da equipe às reuniões, orientações e outros trabalhos desenvolvidos em conjunto com a fonoaudióloga educacional;
• Maior autonomia dos profissionais ao orientarem alunos e suas famílias no que se refere às questões relacionadas à prevenção em Fonoaudiologia, bem como em desenvolver as atividades preventivas em sala de aula;
• Melhoria na percepção da equipe em relação aos progressos e dificuldades dos alunos, relacionados às questões de comunicação. Desta forma, os profissionais têm demonstrado uma maior autoconfiança /segurança nas reuniões com pais/familiares e profissionais externos à instituição;
• Alguns pais já vêm buscando por orientações (da equipe e da fonoaudióloga educacional), além de solicitarem que seus filhos sejam observados regularmente pela fonoaudióloga, mostrando uma valorização, por parte das famílias, do trabalho de orientação e de promoção/prevenção de saúde;
•  Maior participação da família no processo de ensino, dificultando a “terceirização” da educação de seus filhos para a escola. A responsabilidade dos pais torna-se, então, compartilhada com a instituição;
• Pequena redução do percentual dos encaminhamentos (períodos entre 2003 e primeiro semestre de 2007). A hipótese é de que mudanças mais aparentes poderão ser melhor visualizadas a longo prazo (ao longo dos anos de atuação).
Embora o trabalho do fonoaudiólogo inserido no contexto educacional exija esforços e dedicação, sua atuação torna-se imprescindível e extremamente gratificante, já que este profissional, atuando em conjunto com a equipe institucional e as famílias, colabora com a prevenção de doenças e com a promoção da saúde, não só dos alunos, mas de toda uma comunidade.

Referências Bibliográficas
CAVALHEIRO, M.T.P. Trajetória e Possibilidades de Atuação do Fonoaudiólogo
      na Escola. In: LAGROTTA, M.G.M. e CESAR, P.H.A.R. (Org.). A
      Fonoaudiologia nas Instituições. 1 ed. São Paulo: Lovise Ltda, 1997, v.1, p. 81-
      88.
COLLAÇO, N.L. Fonoaudiologia Escolar: as origens de uma proposta. In: O
      fonoaudiólogo e a escola. São Paulo: Summus, 1991.
SACALOSKI, M., ALAVARSI, E. e GUERRA, G.R. Fonoaudiólogo e Professor:
      uma parceria fundamental. In: SACALOSKI, M., ALAVARSI, E. e GUERRA,
      G.R. Fonoaudiologia na escola. 1 ed. São Paulo: Lovise Ltds, 2000, p.20-24.

Fonoaudióloga Larissa de Negreiros Ribeiro Elmôr – CRFa 12455-SP
Graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas; Especialização em Alterações no Desenvolvimento da Linguagem pela Faculdade de Medicina da USP; Mestranda em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. 
 la_elmor@hotmail.com

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