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Linguagem e envelhecimento

Envelhecer é acumular histórias para contar, muita experiência, muita sabedoria para ensinar aos mais jovens que vão chegando. É assim que vejo a ansiedade dos “mais vividos” em falar sobre o que denominam “o meu tempo”. É o que os especialistas chamam de auto-referência: a característica de falar sobre sua própria vivência, de ser recorrente em alguns assuntos.

Ah, se os mais jovens escutassem…

E são tantos detalhes importantes, que surge uma porção de vírgulas e parênteses que vão e voltam nas descrições e por vezes acabam se perdendo do “fio da meada”.  São os circunlóquios, que como o nome sugere, rodopiam e às vezes se perdem da idéia inicial: “sobre o que eu estava falando mesmo?”.

As muitas palavras aprendidas acabam por ser as inomináveis “coisas”, o chamado fenômeno da generalização em que palavras como “negócio” e “coisa” são muletas para amparar as demais daquelas que insistem em sumir: “o negócio ta lá, em cima da coisa”…

Após tantos anos de convívio as palavras somem, este é o efeito “ponta da língua”, em que a palavra está tão próxima, mas muito fugaz, escapa antes de ser pronunciada. Então surgem aquelas expressões: “O, o… como é o nome dele mesmo? Está na ponta da língua…”

Estas características de linguagem são peculiares ao envelhecimento, mas se manifestam de formas diferentes de indivíduo para indivíduo, algumas em maior, outras em menor dose, mas geralmente todas presentes.

Há várias possíveis explicações para a ocorrência das alterações de linguagem. No caso da auto-referência e dos circunlóquios as hipóteses são:

  • a diminuição da inibição (que seria uma espécie de “freio” para o que devemos ou não dizer); ou

  • o fato de a memória episódica (que é a memória para acontecimentos) ser melhor do que a memória operacional (que é a memória para lidar com várias informações recentes, como por exemplo, uma lista de compras); ou ainda

  • o fato de o idoso ter a possibilidade de construir uma “narrativa interna” a partir de toda a sua vivência, encontrando novas interpretações para sua história pessoal, e sentindo a necessidade de compartilhar.

O fenômeno da “ponta da língua” ocorre em todas as fases da vida, mas é mais intenso em idosos, sobretudo com palavras de menor freqüência (palavras menos utilizadas). A hipótese é que o acesso às palavras (ou acesso lexical) vai ficando mais difícil com o avançar da idade, é como um armário antigo em que os objetos menos utilizados vão ficando lá no fundo, e depois de um tempo é preciso vasculhar um bocado para serem encontrados.

Quanto à compreensão, há também algumas diferenças com o envelhecimento, principalmente envolvendo outras funções como atenção e memória. A compreensão de frases e histórias mais longas fica algumas vezes prejudicada pela dificuldade em manter atenção por mais tempo, e pela dificuldade de memória operacional (dificuldade em armazenar dados recentes).

Muitos estudos tentam comprovar o que já parece ser uma verdade popular: idosos que mantém hábitos saudáveis, como um amplo convívio social, atitudes positivas, e hábitos de leitura e escrita têm menor prejuízo de linguagem.

Mais uma vez, viver bem com a vida parece ser o melhor remédio!

Sugestão de Leitura:
PARENTE, Maria Alice Mattos Pimenta e Colaboradores. Cognição e Envelhecimento. Editora Artmed. Porto Alegre, 2006.

 


 

Linguagem e Envelhecimento
Data: 07/01/2008
Autor: Renata Strobilius-Alexandre
Autor: Portal do Envelhecimento
Link: http://www.portaldoenvelhecimento.net/pforum/aptv22.htm