Fonoaudiologia e Desigualdade Social

Qual a relação entre os problemas sociais e a Fonoaudiologia? Como questões de gênero, raça, sexualidade, renda e território podem incidir no aprendizado? Os testes e protocolos de avaliação de linguagem devem levar em consideração as desigualdades socioeconômicas e culturais?

Para a Professora e Fonoaudióloga Lucia Masini, Doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, a discussão sobre Fonoaudiologia, linguagem e desigualdade social é indissociável. “Quando falamos de Fonoaudiologia, estamos falando de linguagem. E quando estamos falamos de linguagem, falamos também de vida. Conforme Bakhtin nos ensina, a língua penetra na vida através dos enunciados concretos que a realizam, e é também através dos enunciados concretos que a vida penetra na língua. Vida e língua, em situações reais de comunicação, não se separam”, argumenta.

Sob essa perspectiva, para falar de linguagem e diferentes formas de comunicação, é preciso inserir essa língua na história de vida dos sujeitos. Nesse sentido, para Lucia Masini, os fonoaudiólogos precisam colocar na pauta do dia a relação de seu trabalho com a linguagem dentro de uma perspectiva histórica e cultural.

Diagnósticos e injustiças sociais
Vejamos um exemplo hipotético. Dois jovens de famílias distintas são diagnosticados com apraxia da fala. Um jovem é de família branca. Outro de família negra. Apesar de ambos possuírem condições financeiras favoráveis e apoio dos pais, apenas um dos dois conquista uma maior autonomia em relação aos seus familiares.

Apesar das dificuldades articulatórias da fala semelhantes, o jovem branco possui vantagens em relação ao jovem negro. Para a família do jovem negro, a fala lentificada impõe questões específicas como o medo do jovem ser apressadamente identificado, por exemplo em uma abordagem policial, como alguém bêbado ou drogado, sem que tenha tempo de explicar sua dificuldade para falar.

Nesse caso, o racismo, enquanto fator de injustiça social, torna-se um elemento chave a ser considerado no processo terapêutico do jovem negro. Ao mesmo tempo que, para o jovem branco, o fator racial é descartável. Um protocolo de avaliação que desconsidere esse elemento racial reforçará essa injustiça, como defende Lucia Masini: “se optarmos por analisar aspectos da língua ou da aprendizagem, retirando-as das reais condições de produção, estamos do lado de quem culpabiliza os indivíduos por suas próprias fragilidades e fracassos”.

Ao mesmo tempo, a pesquisadora destaca que não se trata de compreender as questões sociais como um elemento de risco para transtornos ou déficits cognitivos, mas sim de perceber o papel do fonoaudiólogo, seja na Educação ou na Saúde, de identificar as questões que se apresentam a partir da história de vida do sujeito dentro de um contexto social vigente. “O uso de protocolos e testes que retiram a linguagem de sua natureza dialógica submetem o sujeito a uma avaliação sem parâmetros. Muitas vezes, o produto apresentado por esse sujeito está aquém de suas possibilidades discursivas, provocando uma avaliação equivocada de suas capacidades”, conclui.

Por Raíza Rocha, Jornalista do Crefono 2. 

* Matéria originalmente publicada na Revista Comunicar 78

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