Conselho Regional de Fonoaudiologia

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Atuação do Fonoaudiólogo na Amamentação

Por: Mailda Baldin Pinho de Oliveira, Fonoaudióloga (CRFa 2 -  8815)*

A amamentação impacta potencialmente na saúde das pessoas. Tanto a mulher que amamenta quanto o bebê que recebe leite materno são beneficiados de maneira significativa não só no período da amamentação como ao longo de toda a vida

Vivemos em uma era na qual a evolução tecnológica ocorre em um ritmo cada vez mais intenso. O gerenciamento de problemas e a tomada de decisões ocorrem de maneira prática e eficiente. O acesso à informação está ao alcance de todos. Com apenas um clique, é possível obter esclarecimentos acerca de uma infinidade de conteúdos.

Entretanto, apesar de todos esses recursos tecnológicos, a amamentação, que é um ato milenar, ainda representa um grande desafio para a mulher e para os profissionais de saúde.

No Brasil, a mulher recebe alta hospitalar antes mesmo da apojadura, período no qual ocorre a descida do leite. Por esse motivo, quando ela retorna para casa, além dos desafios com os cuidados do bebê, ela terá que administrar os transtorno comuns dessa fase. Nesse momento delicado, a falta de assistência especializada obriga a puérpera a enfrentar os problemas iniciais da amamentação que coincidem ou se agravam com a apojadura.

A dificuldade mais comum no período da descida do leite é o ingurgitamento mamário, acúmulo de leite nas mamas, ocasionando dor e aumento de volume. O leite torna –se viscoso, o que dificulta sua saída. Isto ocorre devido à sucção ineficaz, mamadas infrequentes, excesso de produção láctea, técnica de amamentação incorreta. O ingurgitamento mamário e as fissuras mamilares são fatores que, frequentemente, levam  ao desmame precoce.

Diante deste cenário, é muito importante priorizar a assistência especializada no pós parto imediato e o acompanhamento da dupla mãe/bebê após a alta hospitalar. A fonoaudiologia, compondo a equipe multidisciplinar, tem um papel fundamental neste processo. Cabe ao fonoaudiólogo orientar sobre o envolvimento da musculatura orofacial no aleitamento materno, advertindo quanto aos prejuízos e consequências do uso de bicos artificiais; avaliar estruturas orofaciais do bebê, posição de língua, lábios e bochechas,  sucção, pega, postura e  posicionamento, anatomia e  condições das mamas e ganho ponderal do bebê.

O fonoaudiólogo é o profissional mais indicado para avaliar com precisão de detalhes o padrão de sucção do neonato, identificando a ação muscular desempenhada pelas estruturas orofaciais durante a extração do leite em seio materno. Ele é capaz de identificar as causas das alterações no padrão de sucção, realizando estímulos musculares excitatórios ou inibitórios, a fim de promover o equilíbrio e garantir assim uma mamada eficiente tanto para a nutriz quanto para o lactente.

Um exemplo interessante do papel do fonoaudiólogo que atua com aleitamento materno dentro de uma equipe multidisciplinar é o Programa de Promoção, Proteção e Apoio ao Aleitamento Materno desenvolvido pela Secretaria de  Saúde  na Maternidade Municipal de Taboão da Serra. Esse programa foi criado com o objetivo de fortalecer e ampliar o serviço de assistência ao aleitamento materno que já existia no município.

A Secretaria de Saúde designou à maternidade uma equipe multidisciplinar formada por  fonoaudiólogo, odontopediatra e psicólogo  para realizar o  acompanhamento   da puérpera  e do recém-nascido nas primeiros horas após o parto. A atuação da equipe ocorre no centro obstétrico, alojamento conjunto e na unidade neonatal. Os profissionais que compõem a equipe possuem formação especializada no manejo clínico da amamentação, realizam atendimento individualizado e orientações em grupo quanto aos diversos aspectos que envolvem o aleitamento materno, identificando e intervindo nas dificuldades iniciais da amamentação.

Na ocasião da alta hospitalar, as mães em aleitamento materno exclusivo efetivo são encaminhadas para as Unidades Básicas de Saúde. Por outro lado, as puérperas que apresentam complicações mamilares, os recém nascidos que foram submetidos à frenotomia,  os prematuros, gemelares, recém-nascidos com alterações neurológicas ou malformações orofaciais são encaminhados  ao ambulatório de Aleitamento Materno onde serão acompanhados semanalmente pela equipe multidisciplinar  até que  amamentação se reestabeleça.

Após a implantação do programa, os pediatras da rede passaram a encaminhar mais cedo e com maior frequência, para o Ambulatório de Aleitamento Materno, os casos de insucesso na amamentação que são, normalmente, bebês com baixo ganho de peso,   anquiloglossia e puérperas com traumas mamilares. O Programa contribuiu, assim, para a diminuição da introdução de substitutos do leite.

Contudo,  quando o assunto é amamentação não podemos pensar em algo linear e pontual. O processo envolve diversos fatores e abrange uma gama enorme de profissionais. Muitas vezes, a mesma nutriz procura o profissional de saúde em um curto período de tempo, apresentando queixas completamente diferentes que exigem a assistência de diversas  especialidades. Todos os profissionais envolvidos necessitam de formação especializada em amamentação a fim de tomar decisões acertadas diante das complicações, evitando que os procedimentos realizados impossibilitem ou dificultem o processo de amamentar. A equipe envolvida tem que falar a mesma língua e manter-se em contato, a fim de que todos tenham conhecimento das condutas adotadas.

A assistência multidisciplinar especializada no pós parto imediato e, principalmente ,  durante as primeiras semanas  de vida do bebê aumentam consideravelmente as chances da mulher superar os problemas iniciais da amamentação, sendo capaz de manter o aleitamento materno exclusivo  por mais tempo.

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*Mailda Baldin Pinho de Oliveira é graduada em Fonoaudiologia pelo Centro Universitário São Camilo em 1997, especialista em Disfagia, com aperfeiçoamento em fonoaudiologia neonatal e amamentação. Atualmente é fonoaudióloga da Maternidade Municipal de Taboão da Serra, do Ambulatório de Aleitamento Materno e do Ambulatório de Risco do Centro de Referência da Saúde da Mulher.  Conquistou o 1ª lugar no Prêmio Bitufo Prof Dr. Luiz Reynaldo de Figueiredo Walter com o trabalho intitulado:  Implantação de Programa de Promoção, Proteção e Apoio em Aleitamento Materno na Maternidade Municipal no Município de Taboão da Serra em março de 2018.