Conselho Regional de Fonoaudiologia

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Artigo: Autismo e Fonoaudiologia

Lucila Pastorello(CRFa 2-4592) é Fonoaudióloga clínica graduada pela USP –SP; Mestre em Semiótica e Linguística Geral - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP-SP e Doutora em Educação - Faculdade de Educação – USP-SP; tem também formação em Linguagem da Criançapela Universidade Sorbonne – Paris V. Atua na área clínica e como assessora e consultora em linguagem oral e escrita. É autora de diversas publicações em livros e artigos científicos, entre as quais o livro “Leitura em voz alta e produção da subjetividade: um caminho para a apropriação da escrita” publicado pela EDUSP e indicado ao prêmio Jabuti 2016.

Na atualidade, o autismo é um dos diagnósticos mais discutidos na área da saúde. Na fonoaudiologia não é diferente: cada vez mais crianças com este diagnóstico chegam aos serviços de atendimento. A maior frequência e difusão do quadro se devem em parte às políticas de inclusão social escolar, ao desenvolvimento de pesquisas científicas de diversos campos do conhecimento e ao modelo diagnóstico utilizado.

Descrito pela primeira vez em 1943 por Leo Kanner, o autismo tem recebido diferentes nomenclaturas. A partir da última publicação do Disgnostical and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), da Associação Norte-americana de Psiquiatria, em 2015, a maioria dos serviços em saúde passou a utilizar no Brasil o termo TEA (Transtorno do Espectro do Autismo), traduzindo “disorder’ por “transtorno”.

As mudanças no diagnóstico do autismo não estão restritas à nomenclatura utilizada, mas também dizem respeito às características clínicas determinantes. Atualmente, dois aspectos são considerados: alterações na comunicação e interação social e a presença de comportamentos, atividades e interesses restritos e repetitivos.

Evidentemente, o fonoaudiólogo figura como profissional fundamental no cuidado às pessoas diagnosticadas com TEA.

Como fonoaudióloga atuo principalmente com as questões da linguagem na infância e há muitos anos atendo crianças e adolescentes com o que se chama hoje de TEA. Tive a oportunidade de participar das primeiras turmas de estágio regular com quadros de psiquiatria infantil na USP, há 30 anos, coordenado pelas Dras. Fernanda Dreux Miranda Fernandes e Claudia Schuer. Naquela época não havia praticamente literatura fonoaudiológica sobre autismo ou outros quadros da psiquiatria infantil. Precisávamos recorrer à literatura internacional que mesmo assim era escassa. O caminho foi estudar e interpelar outras áreas do conhecimento como a psiquiatria, a psicologia, a psicanálise, a neurologia e os estudos linguísticos. E, sobretudo publicar.

Hoje, dispomos de abundante e diversificada publicação fonoaudiológica sobre o autismo. Temos artigos, dissertações, teses, livros que tratam da linguagem, comunicação e da atenção fonoaudiológica aos quadros de TEA. Portanto temos condições de atuar clinicamente com respaldo científico, seja qual for nossa orientação.

Assim o fonoaudiólogo ao tratar crianças e adolescentes com o diagnóstico de TEA deve levar em conta que os TEA são um diagnóstico médico e não fonoaudiológico e que, muitas vezes, o tratamento da linguagem que outros profissionais não fonoaudiólogos dão à linguagem pode ser superficial ou equivocado.

Por se tratar de um quadro importante no desenvolvimento da criança, os TEA são muito estudados e a cada momento aparecem novas técnicas e propostas, que prometem conforto e eficiência aos angustiados clínicos e famílias. É importante que o fonoaudiólogo tenha claro qual a concepção de linguagem e de sujeito implicadas nos métodos e técnicas com as quais decide trabalhar e que esteja sempre atento aos modismos. Autismo e fonoaudiologia com consciência.