Conselho Regional de Fonoaudiologia

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Artigo: Clínica de Linguagem e Autismo

Por Mariana Trenche (CRFa 2 - 9133) é Fonoaudióloga Clínica há 19 anos e trabalha com crianças Transtorno do Espectro Autístico e Transtornos de Linguagem. Foi Professora Titular do Curso de Fonoaudiologia da UniFMU de 2001 até 2017. Titulou-se Mestre em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em (2001). É Especialista em Linguagem pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia, e concluiu os cursos de Especialização em Linguagem (1999) e Graduação em Fonoaudiologia (1997) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e sócia do Lugar de Vida, instituição que oferece atendimento para crianças com transtornos psíquicos graves.

Pais de crianças com Transtorno do Espectro do Autismo geralmente comparecem à clínica fonoaudiológica com a queixa de que seus filhos não falam, falam pouco ou repetem a fala do outro, ainda que não lhe respondam e nem façam pedidos. Impossibilitados de reconhecer em seus filhos uma fala e uma posição de falante, pedem ao clínico de linguagem uma mudança nesta condição.

Compreendendo o processo de aquisição da linguagem como solidário ao de subjetivação do organismo, o clínico de linguagem trabalha na articulação sujeito-língua-fala, ao conceber que a relação da criança com a fala do outro, a língua e a própria fala, é sempre singular.

Essa proposta, denominada por Clínica de Linguagem, nasceu a partir de problematizações de um grupo de clínicos e/ou pesquisadores sobre as falas sintomáticas e do desejo de fazê-las passar por mudança sem lançar mão de técnicas fonoaudiológicas tradicionais. Filiado ao Interacionismo Brasileiro e à Psicanálise, esse projeto procurou distanciar-se da lógica médico-causalista, bem como das práticas terapêuticas ortopédicas (aquelas que visam ensinar a linguagem à criança) seguindo um novo caminho de intervenção no campo das patologias de linguagem. Ao tomar a linguagem como funcionamento regido por leis próprias (Saussure/Jakobson), a Clínica de Linguagem aposta em trabalho interpretativo de natureza linguística, capaz de afetar o sujeito nas suas posições de falante e de ouvinte.

Especificamente no caso de crianças com TEA, trata-se de interpretar, por meio da linguagem, os gestos corporais e sonoros (Arantes, 2005), bem como supor endereçamento nas falas repetitivas, com o objetivo de antecipar a criança na posição de falante. A clínica de linguagem também pode ser um dispositivo dentro do trabalho Institucional.

O conceito de Educação Terapêutica (Kupfer, 2010) reúne um conjunto de práticas interdisciplinares de tratamento com o intuito de transmitir as marcas simbólicas para que a criança venha a ocupar um lugar de enunciação no campo da palavra e da linguagem. Isto se dá a partir do acompanhamento escolar da criança e dos mais diversos dispositivos institucionais, entre os quais estão as intervenções fonoaudiológicas e psicológicas individualizadas, grupos terapêuticos, ateliê de culinária, oficina de música, entre outros. Os efeitos deste modo de se fazer clínica têm se mostrado cada vez mais profícuos, permitindo às crianças ocuparem a posição de intérprete, fazer laço social e se alfabetizarem, enunciando-se também pela via da escrita.